in Pausa para café

Está o Facebook preparado para o mundo real?

Não nos enganemos: o Facebook não quer ser palco de notícias – a recente mudança no algoritmo diz precisamente isso. Quer ser um lugar onde as fronteiras entre o público e o privado estão diluídas, colocando o seu utilizador numa redoma de felicidade em que vê as suas crenças e vontades confirmadas numa feed artificial.

Foi para isso que apareceu a funcionalidade Live: para que o utilizador possa mostrar ao “seu mundo”, em direto e sem edição. Transmitir momentos de intimidade e felicidade que arrancam sorrisos ao mesmo tempo que massajam o ego do produtor de conteúdo que, com os números de pessoas que decidiram prestar atenção àquilo que tem para mostrar, sente a sua relevância na rede aumentada.

Mas as ferramentas são aquilo que o utilizador decide fazer com elas. E o que Diamond Reynolds fez ao contar em direto como o seu noivo tinha acabado de ser baleado por um polícia foi, mesmo que inconscientemente, subverter toda a lógica para que o facebook live foi inventado. A rede social vê-se então atirada para esta chatice que é o mundo real onde conflitos raciais, golpes de estado e violência desenfreada existem.

O facebook não quer estar metido nessa chatice: “nós não estamos no negócio de escolher que assuntos as pessoas devem ler. Estamos no negócio de ligar pessoas a ideias”, escreve Adam Mosseri, gestor de produto, no blogue do Facebook Newsroom. Mas ao que parece que os utilizadores até querem.

Como descobri com a reportagem “Instantes de Idlib“, nem sempre é fácil que o mundo verdadeiro ultrapasse a bolha do que se espera que uma rede social seja. Mas quando o faz, o valor jornalístico é incontestável. O caso Diamond Reynolds é só mais um exemplo disso.

Não sei é se o facebook está preparado para isso.

Nota: Para os interessados nos streams que o Facebook Live permite, neste link pode ver um mapa com todos os diretos a acontecer de momento. Quando os olhos não puderem ver uma revolução a acontecer, pode ser que o telemóvel de outro possa ajudar (e nunca substituir) no processo de construção noticiosa.