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Tentei ficar longe da Internet por uma semana. Durou um dia

Lembro-me da primeira vez em que, no conforto da minha casa, tive acesso livre à internet.

A sensação de pertencer aquele mundo onde as respostas estavam à distância de um clique (dependendo, claro está, da boa vontade do modesto modem da época) é algo que ainda hoje tenho dificuldades em explicar.

Para um adolescente não muito social e com gostos fora do comumhoje em dia seria um hipster, na altura era só um totó – a internet tinha tudo para me deixar feliz.

Era um espaço em que, finalmente, me sentia integrado.
Um lugar onde encontrava pessoas com os mesmos gostos e onde o ecrã servia de máscara para toda a idiotice que eu dissesse.

Mas se a internet tinha feito tanto por mim, também tinha pedido algo em troca. Percebi-o durante as minhas férias, quando decidi percorrer um riacho ao longo de 1 km com a minha Nikon só para conseguir grandes fotos para o meu recente blogue de fotografia.

Não era o facto de estar a tirar fotografias. Afinal de contas é um hobby que me distrai nos tempos de lazer. Era o facto de estar a fazer aquilo só para conseguir aumentar a reputação do meu blogue.

Com 20 anos, utilizador da internet assíduo desde os 10 anos, tinha chegado à conclusão que já não sabia viver sem a reconfortante sensação de estar sempre ligado, sempre actualizado.

Sempre online.

Numa era em que no smartphone chovem notificações da conta do facebook, do twitter, das 3 contas de e-mail e de uma panóplia quase infinita de aplicações que gritam pela minha atenção a todo o segundo, dei por mim a pensar:

“Caramba. Eu já não consigo viver sem isto!”

E, por isso mesmo, durante uma semana, desafiei-me a viver desligado da rede que mudou o meu pequeno mundo.

Durou um dia.


Nunca um Domingo à Noite foi tão interessante

A primeira coisa que se faz cá por casa sempre que chegamos é ligar o router que fica desligado ao fim de semana, quando ninguém ocupa o apartamento onde vivemos em tempo de aulas.
Um acto involuntário, daqueles que já fazemos por habituação e porque a rede wireless é hoje uma necessidade quase ou mais importante do que àgua quente num apartamento onde vivem 3 jovens universitários.

Nesse domingo à noite, chegados à cidade onde estudamos para mais uma semana de actividades académicas, decidi que não seria eu a ligar o aparelho.

Comecei a arrumar as compras, pôr as contas em ordem, começar a preparar o jantar… Entretanto o meu colega de casa foi até ao seu quarto e em 3, 2, 1… Lá veio ele, lançado com especial velocidade, na direção do botão mágico.

Estivemos meia hora sem wireless em casa. Que sacrilégio.

Nessa noite, depois do jantar, fiz uma coisa que já não me lembrava de fazer há algum tempo: ver televisão.

Escusado será dizer que a grelha de domingo à noite de mais de uma centena de canais de televisão não chegou para me entreter. Quando dei por mim eram 22h e já dormitava no sofá de aborrecimento.

Ou a TV já não é o que era, ou já nem ver TV consigo. Bolas.


O quê, mas não há streaming nem podcasts???

Todas as noites, e antes de adormecer, tenho por hábito ouvir alguns episódios em podcast. É uma forma interessante de estar a par do que se vai fazendo na rádio lá fora.

Deitado na cama e a estudar o teto, demorei breves segundos a compreender porque é que o novo episódio de This American Life não se fazia ouvir.

No meu cérebro a ideia de que tudo aquilo era só estúpido formulava-se a um ritmo exponencial. Mas eu tinha que conseguir.

Poderia eu estar assim tão dependente?

“Ok, vamos ouvir música até adormecer”, pensei eu conformado.

Só que, no telemóvel, tinha 0 bytes de música. Numa altura em que aplicações como o Spotify revolucionam o mercado da música, parece cada vez mais ridículo ocupar a limitada memória do aparelho com tal coisa.

Isto, claro, se não estiveres a tentar provar que consegues viver sem uma ligação à internet. Porque nessa noite tive que adormecer ao som dos carros que passavam na rua.


Baguete mista sem última hora?

A segunda-feira fluiu com uma estranha sensação de libertação, que depressa se converteu em abandono total. Não havia e-mails nem notificações a vibrar a cada segundo no bolso das minhas calças e isso era algo que me preocupava.

Comprei o jornal naquele dia logo pela manhã. E em vez de ler as capas dos diários no conforto da minha aplicação móvel tive de facto de ficar especado por uns minutos a ler tudo no quiosque.

(Tãaaao século XX)

Ao almoço tive de simplesmente almoçar. Provavelmente estavam a acontecer um sem número de coisas interessantes para saber no mundo e ali estava eu, sentado no bar da Universidade, a apreciar o sabor de uma baguete mista…

Que vazio.


Então, mas e como é que eu resolvo as coisas?

Foi no que restava da minha pausa para o almoço dessa segunda-feira offline que caí na tentação.

Uma colega, de tablet na mão, perguntava-me porque não conseguia ligar-se à rede wireless da universidade. E, claro está, eu não sabia como resolver a questão, mas conhecia quem soubesse.

Sem sequer pensar muito no meu movimento, tirei o smartphone do bolso, abri o motor de busca e googlei a resposta.

Só depois de a minha colega ter a ligação configurada correctamente é que me apercebi como de facto resolvera a questão.

“Foi só desta vez, não conta”, pensei eu.

Claro. Só dessa vez.


Fim de tarde sem rede social? Não dá.

Chegado a casa, com saudades da sensação de fazer parte de algo, sentei-me no sofá da sala, pensando no que havia para fazer.

Certamente que tinha matéria para rever. Tinha aquele artigo para escrever, aquele texto complexo sobre dinâmicas e padrões de comunicação. Até tinha alguns tutoriais para seguir sobre uma ou outra ferramenta que poderia ser útil aprender para o meu futuro.

Mas o meu cérebro não queria nada disso. O meu cérebro aclamava por videos virais, memes e estados inúteis sobre o quotidiano das pessoas.

Mais do que isso.

O meu cérebro queria saber o que se passava no mundo. Queria ler a imprensa internacional, queria ver as novas polémicas. Queria estar ligado, queria fazer parte daquilo que era já o meu quotidiano.

Não queria estar mais sozinho.

Para além disso, soubera na aula da tarde que para renovar a matrícula da universidade tinha que aceder ao portal da universidade.

Peguei no computador portátil.

O frio do metal cromado era reconfortante. Abri o computador sobre o joelho e as páginas deixadas abertas de domingo à tarde continuavam lá, a pedir atenção.

Ia só matricular-me na universidade e voltava logo ao meu estado de eremita

Claro que sim. Uma hora depois já tinha visitado todas as redes sociais, lido todos os e-mails, lido as notícias e acompanhado os videos de alguns dos meus youtubers favoritos.

Obviamente que eu conseguia viver sem internet. Só não seria era naquela semana.

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